Imagine um mundo onde você não precisa decorar sintaxes complexas de DAX ou lutar contra a linguagem M para construir modelos de dados robustos. Um cenário onde seu papel deixa de ser o de um “escritor de código” para se tornar um verdadeiro arquiteto de soluções, conversando com seus dados em linguagem natural.
Essa não é uma promessa futurista distante. É a realidade trazida pelo protocolo MCP (Model Context Protocol) aplicado ao Power BI.
Neste artigo, vamos explorar como essa tecnologia está redefinindo a interação entre Inteligência Artificial e ferramentas de Business Intelligence, transformando a maneira como analistas e desenvolvedores trabalham. Você entenderá o que é o MCP, como configurá-lo e verá um estudo de caso prático de como automatizar a criação de tabelas, relacionamentos e medidas complexas usando apenas o chat do VS Code.
O que é o Protocolo MCP?
O Model Context Protocol (MCP) representa uma mudança tectônica na arquitetura de software moderna, especialmente na interseção entre IA e ferramentas de produtividade.
Em termos simples, o MCP atua como um “diplomata universal” ou um conjunto de diretrizes padronizadas que permite a comunicação fluida entre tecnologias distintas. Antes do MCP, integrar um assistente de IA (como o GitHub Copilot) a uma aplicação externa (como o Power BI) exigia integrações personalizadas, complexas e frágeis.
Com o MCP, cria-se uma ponte estruturada. No contexto do Power BI, o protocolo permite que a Inteligência Artificial não apenas “leia” sobre o Power BI, mas interaja diretamente com o motor do software. A IA consegue interpretar comandos em linguagem natural (“crie uma tabela calendário”) e convertê-los em operações técnicas precisas no modelo tabular (TOM – Tabular Object Model), como a criação física de colunas, relacionamentos e medidas DAX.
A Democratização do Desenvolvimento de BI
A introdução do MCP no ecossistema da Microsoft sinaliza uma democratização profunda. A barreira de entrada técnica diminui drasticamente. O foco do profissional migra da sintaxe (como escrever um CALCULATE com FILTER corretamente) para o conceito lógico (o que eu preciso calcular e por quê?).
Isso não significa o fim do analista técnico, mas sim a sua evolução. O tempo antes gasto em depuração de código agora pode ser investido em regras de negócio, qualidade dos dados e estratégia.
Pré-requisitos e ferramentas necessárias
Para implementar essa solução inovadora e seguir o guia prático que apresentaremos, você precisará preparar seu ambiente de desenvolvimento. A integração não ocorre nativamente dentro da interface padrão do Power BI Desktop, mas sim através de uma conexão externa via Visual Studio Code.
Aqui está o “kit de ferramentas” necessário:
Software Essencial
- Power BI Desktop: A versão mais recente instalada.
- Visual Studio Code (VS Code): O editor de código fonte que servirá como nossa “central de comando”.
Extensões do VS Code
Para que a mágica aconteça, você precisará instalar as seguintes extensões no Marketplace do VS Code:
- GitHub Copilot Chat: A interface de chat onde você digitará seus comandos.
- GitHub Copilot: O motor de IA que processará as solicitações.
- PowerBI MCP: A extensão crucial que atua como o servidor MCP, traduzindo as intenções do Copilot em ações no Power BI.
Contas e Acessos
- Conta no GitHub: É necessário ter uma conta ativa, preferencialmente com uma assinatura do Copilot habilitada para acessar os recursos de chat inteligente.
Ferramentas Opcionais (Mas Recomendadas)
- DAX Studio: Embora não seja estritamente necessário para a criação, é excelente para verificações avançadas de performance e para confirmar se as medidas foram implementadas corretamente no modelo tabular.
Estudo de caso prático: Gestão de RH (colaboradores e férias)
Para sair da teoria e demonstrar o poder do MCP, vamos simular um cenário real de um departamento de Recursos Humanos. O objetivo é criar um modelo de dados para analisar o saldo de férias dos colaboradores.
O Cenário Inicial
Temos um arquivo .pbix aberto com duas tabelas principais importadas, mas sem nenhum relacionamento entre elas:
- Tabela
Colaboradores: Contém dados cadastrais, como ID do funcionário, nome, data de admissão e cargo. - Tabela
Controle de Férias: Contém o histórico de solicitações, datas de saída e retorno de férias.
Nota Técnica Importante: Antes de iniciar a automação com a IA, certifique-se de que seus dados estão estruturados minimamente. Em casos onde os dados vêm de fontes como APIs ou JSON (listas de registros), é crucial usar o Power Query para “Expandir valores”. A IA precisa conseguir ler colunas nomeadas corretamente (como “Nome”, “Data”, “ID”) para entender o contexto. Se os dados estiverem ocultos dentro de objetos
RecordouList, o MCP não conseguirá interpretá-los.
Fluxo de trabalho com MCP: Passo a Passo
A seguir, descrevemos o processo realizado inteiramente via chat no VS Code, interagindo diretamente com o arquivo do Power BI aberto em segundo plano.
1. Conexão com o Modelo
O primeiro passo é estabelecer a “ponte”. Com o Power BI Desktop aberto e o arquivo carregado, vamos ao chat do Copilot no VS Code.
Comando do Usuário:
“Se conecte com o meu Power BI.”
Ação do Sistema:
O servidor MCP varre as portas locais em busca de uma instância ativa do Analysis Services (o motor por trás do Power BI). Ele geralmente identifica uma porta aleatória (ex: localhost:51392). O sistema solicitará sua aprovação para leitura e escrita no modelo. Ao aprovar, o VS Code assume o controle do modelo de dados.
2. Leitura e Interpretação do Contexto
Antes de pedir alterações, precisamos garantir que a IA “entende” os dados.
Comando do Usuário:
“Liste as tabelas encontradas e sua interpretação dos dados.”
Ação do Sistema:
A IA lê o esquema do banco de dados (metadados). Ela retornará um resumo, identificando corretamente que a tabela Colaboradores parece ser uma tabela dimensão (quem são as pessoas) e Controle de Férias contém fatos transacionais (eventos de férias). Essa validação é crucial para garantir que a IA não alucine sobre a estrutura.
3. Criação de Tabela Calendário (dCalendar)
Todo bom modelo de BI precisa de uma tabela de datas. Fazer isso manualmente em DAX ou Power Query leva tempo. Com o MCP, é instantâneo e dinâmico.
Comando do Usuário:
“Crie uma tabela calendário completa diária, onde a menor data é a menor data encontrada nas tabelas atuais e a data fim será a maior data das tabelas. Esta tabela deve ser dinâmica e se alterar na medida que os dados são atualizados.”
Ação do Sistema:
O servidor MCP gera e executa um script DAX. Ele cria uma nova tabela no modelo chamada dCalendar (ou similar). Mais impressionante: ele varre as colunas de data das tabelas existentes (Admissão, Saída Férias) para definir automaticamente os limites MIN e MAX. A tabela já vem com colunas úteis como Ano, Mês, Trimestre e flag de Dia Útil.
4. Modelagem e Relacionamentos Inteligentes
Aqui reside um desafio comum: a granularidade. Um colaborador pode ter múltiplos registros de férias. Tentar relacionar direto pode causar erros de “Muitos para Muitos” ou ambiguidade. Vamos pedir para a IA resolver isso com boas práticas.
Comando do Usuário:
“Crie uma tabela de extração de colaboradores para usar como índice entre a tabela de Colaborador e Controle de Férias, para direcionar a relação de dados sem criar referências circulares.”
Ação do Sistema:
A IA entende o conceito de “Tabela Ponte” ou tabela de dimensão técnica. Ela cria uma tabela contendo apenas os IDs únicos dos colaboradores e estabelece os relacionamentos:
Tabela Ponte(1) -> (*)ColaboradoresTabela Ponte(1) -> (*)Controle de Férias
O modelo é atualizado visualmente no Power BI sem que você precise arrastar uma única linha na exibição de modelo.
5. Criação de Medidas de Negócio (DAX)
Agora, a regra de negócio complexa. Precisamos calcular o saldo de férias. A regra é: cada mês trabalhado dá direito a 1/12 de férias (aproximadamente 2,5 dias por mês neste exemplo hipotético de regra generosa, ou o padrão de 1,8/2,5 dias dependendo da CLT). Vamos simplificar para o exemplo:
Comando do Usuário:
“Crie uma tabela ou medidas que listem os colaboradores. Calcule o número de dias com direito a férias, sendo que cada mês na empresa dá direito a 2,5 dias. Compare este número com outra coluna que calcula o número de dias já gozados.”
Ação do Sistema:
O MCP escreve as medidas DAX. Ele cria:
- Uma medida para calcular o tempo de casa (diferença entre
AdmissãoeHojeou data de desligamento). - Uma medida que multiplica os meses por 2,5 (Direito Adquirido).
- Uma medida que soma os dias da tabela de
Controle de Férias(Dias Gozados). - Uma medida final de
Saldo(Direito – Gozado).
.Tudo isso inserido no modelo, pronto para uso.
Capacidades e Limitações Atuais
É vital gerenciar as expectativas. O MCP é poderoso, mas não é (ainda) onipotente.
O que o MCP + IA faz com excelência:
- Interação Física com o Modelo: Ele realmente cria tabelas e colunas. Não é apenas uma sugestão de código que você precisa copiar e colar; a alteração é feita no arquivo.
- DAX Complexo: Escreve fórmulas de inteligência de tempo, CALCULATEs aninhados e tratamento de erros com rapidez.
- Gestão de Relacionamentos: Consegue identificar chaves primárias e estrangeiras e conectar tabelas.
- Consultas de Dados: Pode responder perguntas sobre os dados (“Quantos funcionários foram admitidos em 2023?”) executando queries temporárias.
O que o MCP NÃO faz (ainda):
- Criação de Visuais: Esta é a limitação mais importante. A ferramenta não constrói a camada visual. Ela não cria gráficos de barras, cartões ou dashboards na tela do Power BI. O MCP prepara o “backend” (o modelo), mas o “frontend” (o relatório visual) ainda depende do usuário arrastar as medidas criadas para a tela.
- Design e Layout: Não espere que ele escolha cores, formate fontes ou organize o layout da página.
O Futuro do Analista de BI
A utilização do protocolo MCP no Power BI não elimina o analista, mas eleva a barra de competência necessária. A barreira técnica da linguagem DAX (“como escrever”) é removida, exigindo do profissional maior capacidade em três pilares:
- Arquitetura de Dados: Você precisa saber o que pedir. Entender o que é um Schema Star (Estrela), a diferença entre Tabela Fato e Dimensão e conceitos de normalização é vital para guiar a IA. Se você pedir uma estrutura ruim, a IA criará uma estrutura ruim muito rápido.
- Engenharia de Prompt: A qualidade da resposta depende da qualidade do pedido. Saber descrever regras de negócio de forma clara, lógica e sequencial torna-se uma habilidade técnica indispensável.
- Validação e Governança: A IA pode errar. O analista torna-se um auditor, conferindo se a lógica aplicada pela automação condiz com a realidade da empresa e se os números finais fazem sentido.
Conclusão
O Protocolo MCP e a integração com o Power BI marcam o início de uma nova era. Estamos saindo da era da construção manual e artesanal de códigos para a era da orquestração de dados assistida por IA.
Para empresas, isso significa agilidade na entrega de insights. Para profissionais, significa a oportunidade de focar menos na “carpintaria” do código e mais na “arquitetura” da solução de negócios. A revolução já começou, e ela fala a sua língua.




